Imperador Akihito marca fim da era Heisei no Japão após renúncia. O Período, chamado Heisei (“trazer a paz”), chega ao fim após 30 anos e será levado a cabo por seu filho. Este mês tem-se início a Era Reiwa, nome oriundo de uma antiga poesia japonesa que remete à paz.

Poucas glórias para o país asiático: ao fim do milagre econômico, a China tomou a dianteira da economia, a população ficou mais velha e o estado contraiu dívidas. Para os japoneses, eram as “décadas perdidas”.

Durante a era Heisei, houve 17 diferentes primeiros-ministros, dos quais apenas quatro governaram por mais de dois anos. A constância e a confiabilidade foram asseguradas pelo imperador Akihito e sua esposa Michiko.

Eles prestaram uma importante contribuição a essa época, dando consolo à população através de encontros com vítimas de desastres naturais, e fizeram da manutenção da memória da Segunda Guerra Mundial a consciência moral da nação.

Consolando e advertindo, Akihito atribuiu novo significado à instituição do imperador, definida pela Constituição pós-guerra como um “símbolo de unidade nacional e estatal”.

Quando Akihito subiu ao Trono do Crisântemo, em 7 de janeiro de 1989, a família imperial ainda estava em crise. Seu pai, Hirohito, perdera o caráter divino devido à derrota na Segunda Guerra, tentando depois em vão se aproximar do povo. A reverência dos japoneses diante do tímido monarca permanecera simplesmente exagerada.

Mas, logo após a guerra, Hirohito aclamou uma monarquia constitucional tendo o Reino Unido como modelo. Ele escolheu Elisabeth Gray-Vining como professora particular, a fim de que seu filho fosse educado para se tornar um novo tipo de imperador.

A autora americana de livros infantis transmitiu ao adolescente ideias estrangeiras e percepções europeias de monarquia. Contra a resistência da corte, Akihito casou-se mais tarde com uma plebeia, criou os dois filhos em sua própria casa e os enviou para estudar em Oxford.

Imperador popular

Akihito também quis modernizar a instituição do tenno (imperador). “Como todos os monarcas anteriores, eu gostaria de ter sempre em mente a felicidade dos cidadãos e, ao mesmo tempo, buscar uma regência que se encaixe nos tempos atuais”, anunciou Akihito poucos meses depois de subir ao trono.

Junto a sua esposa, ele aumentou o número de aparições públicas e tornou a popularidade uma prioridade. Depois de uma erupção vulcânica em 1991, Akihito e Michiko visitaram as vítimas em roupas casuais, ajoelharam-se diante delas e as consolaram. Isso chocou os conservadores, mas inspirou o povo e a mídia.

Assim, o casal imperial encontrou seu próprio estilo. A partir de então passou a apertar as mãos de vítimas de desastres, visitar asilos de idosos e instalações para deficientes, encontrando sempre palavras calorosas.

“Esse novo estilo foi bem-recebido pelo povo, justamente na era Heisei, quando a desigualdade social crescia e muitos se sentiam deprimidos e sem perspectivas”, explicou o especialista em assuntos imperiais Hideya Kawanishi, da Universidade de Nagoya.

Assim, Akihito tornou-se um símbolo de integração nacional, como estabelecido pela Constituição. Quanto mais a população respondia positivamente, mais o imperador intensificava suas atividades.

Seu outro foco foi o legado histórico do pai, em cujo nome as tropas imperiais conquistaram metade da Ásia. Até hoje, a elite conservadora do Japão reluta em reconhecer e desculpar-se pelo sofrimento causado pela guerra.

Nesse ponto, Akihito pôde deixar sua marca, embora fosse proibido de fazer declarações políticas pela lei imperial. Para suas primeiras viagens ao exterior, o tenno escolheu a Indonésia e a China. No Império do Meio, lamentou a agressão pelo Japão e elogiou as conquistas da cultura chinesa, lembrando os japoneses de quanto sua própria cultura deve à China.

Por ocasião do 70º aniversário do fim da Segunda Guerra em 2015, enquanto o primeiro-ministro nacionalista Shinzo Abe renunciou à palavra “arrependimento”, o imperador enfatizou “uma profunda autocrítica” em seu próprio discurso.

“Para ser franco, Akihito se comprometeu mais com uma reconciliação sustentável do Japão com os vizinhos asiáticos do que a maioria dos primeiros-ministros da era Heisei”, apontou o historiador Torsten Weber, do Instituto Alemão de Estudos do Japão, em Tóquio.

Mais tarde, o casal imperial visitou as Filipinas e muitos cenários de batalhas entre o Japão e os EUA no Pacífico. Devido a suas algemas legais, Akihito não pôde se desculpar pela guerra, mas sempre encontrou palavras de arrependimento cuidadosamente escolhidas e orou por todas as vítimas da guerra.

Como parte dessa diplomacia imperial, Akihito também quis visitar a Coreia do Sul, referindo-se a linhagens comuns com a Casa Real coreana Paekche. Contudo a visita seria sensível demais para o governo, devido ao conflito em torno da prostituição forçada de coreanas pelo Exército japonês.

“Para os líderes de opinião conservadores, Akihito não é considerado politicamente alinhado, embora eles gostem de cooptar o imperador para seus objetivos”, comentou o historiador Weber.

Segundo conhecedores da família imperial, a decisão de Akihito de abdicar prematuramente deve-se à tentativa de forças conservadoras de limitar suas atividades, aludindo a sua idade e saúde.

Sob essas circunstâncias, consta que Akihito temera que a nova imagem imperial evanescesse e a permanência da instituição fosse novamente ameaçada. “Akihito quer abdicar prematuramente para passar suas atividades intocadas ao filho”, deduz o especialista em assuntos imperiais Kawanishi.

E isso pode dar certo: em fevereiro último, o novo imperador Naruhito prometeu seguir os passos de seus pais. Reiwa, o nome da nova era, é formado por dois caracteres kanji, significando “ordem” e “paz” ou “harmonia”.

CURIOSIDADES

Primeira sucessão de um imperador vivo

Esta será a primeira sucessão de um imperador vivo em cerca de 200 anos no Japão. Nobuo Ishihara, que serviu como vice-secretário de gabinete quando o nome da era japonesa foi mudado de Showa para Heisei em 1989, relembra como foi o procedimento na época.

“Desta vez, a sucessão imperial está marcada para ocorrer enquanto o Imperador estiver vivo, para que possamos realizar discussões de uma maneira muito aberta”, disse Ishihara, salientando a necessidade de garantir a transparência nos debates sobre o novo nome da era, e cerimônias e outros eventos relacionados com a entrega do trono.

Quando o Imperador Hirohito, pai do Imperador Akihito e postumamente chamado de Imperador Showa, foi diagnosticado com um câncer, o governo japonês começou secretamente, cerca de um ano antes da sua morte, os preparativos para seu funeral e cerimônias de entronização para o imperador Akihito, bem como um trabalho para decidir o nome da próxima Era.

“Não conseguimos dizer (abertamente) que ‘estávamos fazendo preparativos para o funeral do imperador Hirohito’ enquanto ele ainda lutava contra sua doença”, lembrou Ishihara. “No entanto, essa consideração foi desnecessária desta vez”, disse ele.

Isso facilita a vida dos fabricantes de calendário pois permite que tudo seja planejado com antecedência. Setores da administração pública que utilizam documentos que mencionam a era, juntamente com o calendário gregoriano, também terão tempo para se organizar.

Inspiração da Literatura antiga japonesa

Os dois kanjis usados ​​para Reiwa vieram da introdução de um conjunto de 32 poemas oriundas do século 7, com temas de flores incluídos em “Manyoshu”, a mais antiga antologia de poemas waka existente no Japão. O nome da era será um símbolo do amor à cultura do povo japonês e da natureza rica do país, disse o Primeiro Ministro Shinzo Abe.

“O nome da nova era se baseia em um texto sobre a natureza, que é diferente dos nomes da era anterior”, disse ele, apontando que pessoas de uma variedade de classes sociais – que vão desde imperadores, guerreiros e fazendeiros – todos contribuíram com poemas para o livro.

Abe disse que o nome significa que a cultura nasce e cresce quando as pessoas se reúnem e “cuidam umas das outras lindamente”. “Com essa seleção de um novo nome, renovei meu compromisso de ser pioneiro em uma nova era que será cheia de esperança”, disse Abe.

 

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