A história do Bitcoin pode ser considerada revolucionária porque nasceu de um conceito anarquista atrelado à criptografia, até sua chegada ao mainstream

A história do Bitcoin, primeira moeda digital utilizada em larga escala, é conhecida por quase todo mundo: Em 2008, Satoshi Nakamoto, um japonês ou um grupo de programadores – pois não se sabe quem está por trás do pseudônimo – postou o protocolo original do Bitcoin, conhecido como White Paper, na lista de discussão do The Cryptography Mailing, assim como o registro de domínio bitcoin.org foi anunciado. No ínterim de dois anos, o personagem ainda se mantinha ativo no fórum BitcoinTalk, modificando a rede e o protocolo de sua criação1. Sua última atividade no fórum, porém, é datada a 12 de dezembro de 2010 e versa sobre segurança de ataques DoS.

No livro Teoria do dinheiro e da moeda fiduciária, Ludwig von Mises, economista da Escola Austríaca de pensamento econômico, apresenta o chamado “Teorema da Regressão” no qual exprime que é praticamente impossível que surja algum tipo de dinheiro que seja imediatamente um meio de troca, de modo instantâneo. Segundo o teórico, o status de um bem só é alcançado se já houver valor deste como mercadoria. Somente a partir de seu uso mercadológico uma moeda começa a vigorar como dinheiro. Esta realidade, porém, se deu no mesmo ano em que Satoshi Nakamoto fez sua última análise no BitcoinTalk.

Em maio de 2010, um programador americano de ascendência húngara, Laszlo Hanyecz, estava com fome. Segundo a mitologia em torno da história, Laszlo resolveu comprar uma Papa John’s Pizza de seu amigo Jeremy Sturdivant, conhecido como Jercos, por cerca de 25 dólares. No intento, não tinha nenhum dólar no bolso, por isso pagou 10.000 BTC, o que equivaleria hoje a mais de 140 mil dólares2. A história da “pizza mais cara de todos os tempos” virou lenda e até hoje atrai traders, analistas de mercado, leigos e entusiastas em tecnologia, especialmente os que se arriscam na compra e venda de commodities criptográficas.

Criptografia

Em 1975, o mundo vivia sob o jugo obscuro da Guerra Fria e as tropas estadounidenses saíram derrotadas do Vietnã, vencidas pelos comunistas do Norte. Naquela época, somente a NSA (Agência de Segurança norte-americana), possuía o monopólio de algo parecido com criptografia, a Data Encryption Standard, algo bastante rudimentar para o que viria a seguir. Porém, no MIT, o renomado instituto de engenharia, um jovem estudante chamado Whitfield Diffie, um assistente computacional de 31 anos, criou, em conjunto com Martin Hellman, um criptógrafo weird, o Método Diffie-Hellman de criptografia, no qual se encapsula o próprio Bitcoin. O âmago do projeto deu-se a partir dos questionamentos do tipo “como trocar mensagens cifradas?” ou “como mandar um e-mail com informações que, a partir de seu transporte, contém segredos os quais somente o destinatário final poderá ter acesso?”, até o desfecho daquilo que ficou conhecido como o primeiro conceito de Criptografia de Chave Pública3 fora de qualquer domínio governamental.

O Modelo Diffie-Hellman consistia em proteger as informações a partir de uma codificação de mensagens originais, conhecida como “texto simples”, pelo uso de uma chave. Desta feita, a chave mudaria todas as letras da mensagem para que qualquer pessoa que tentasse lê-la durante o envio, interpretaria somente um “cyphertext”. Quando a mensagem assim chegasse ao destinatário, este usaria a mesma chave para decifrar o código, retornando ao texto simples. Algo que se usa até hoje. O trabalho do duo durou cerca de dois anos, a partir do protocolo de trocas de chaves com funções unidirecionais dadas pela aritmética modular, até resolver o axioma da criptografia assimétrica. O método foi baseado nas operações com logaritmos discretos. Uma maior influência deu-se para o Bitcoin dentro da própria forma de mineração: Se o número primo for muito grande, o computador irá gastar muito tempo para calcular o logaritmo discreto, pois o problema é, do ponto de vista computacional, extremamente complexo.

Cypherpunks

Desde o surgimento da internet4, contudo, os usuários já se preocupavam com a privacidade na rede, pois suas informações poderiam ser interceptadas por governos ou corporações, já que não havia, naquela época, nos primórdios da comutação de pacotes em redes, qualquer mecanismo efetivo que protegesse os dados transportados. Ato contínuo, em fins dos anos 1980, surgiu um movimento que tomaria para si as rédeas da segurança na comunicação pela internet: o Movimento Cypherpunk5, que levantava a bandeira da criptografia como como forma de obter democracia atrelada à privacidade na rede6.

Isto posto, em 1992, o grupo composto por ativistas, filósofos, matemáticos, cripto-anarquistas e hackers que lutavam em defesa da privacidade online e da criptografia como forma de aprimoramento de espaços invisíveis na rede, buscava mudanças sociais e políticas através de chaves criptográficas e da internet livre, além de fazer resistência ao establishment. Os cypherpunks, os quais tiveram o termo cunhado pela lendária St. Jude7, e que se comunicavam em rede através de uma extensa lista de e-mails, assim como o próprio Satoshi Nakamoto no início do projeto Bitcoin, escreveram naquele ano o Manifesto Cypherpunk ou Manifesto do Cripto-Anarquismo, no qual pode ser lido que “a privacidade se faz necessária para termos uma sociedade aberta na era eletrônica”. Assim, através dos códigos criptográficos, eles pensavam que iriam inibir o controle governamental e regulatório de dados entre o tráfego de informações na rede a favor da liberdade de expressão e privacidade, dentre outros direitos fundamentais.

 

Capa da revista Wired de maio/junho de 1993, com os Cypherpunks

 

 

 

 

 

Durante o boom da era do acesso comercial da internet, nos anos 90, Tim May, John Gilmore e Eric Hughes, expoentes do movimento, foram capa da revista Wired, na qual apareciam usando máscaras à lá Anonymous e segurando uma bandeira dos EUA, em uma matéria intitulada “Rebeldes com causa”. Assim, os cypherpunks afirmaram que, diante de uma transação financeira, ao utilizar criptografia, os atores envolvidos somente deveriam ter conhecimento e acesso ao que é estritamente necessário na operação, para segurança de ambas as partes no processo. Ganhou-se a partir daí a ideia de um dinheiro digital cujo valor e proteção não dependesse de uma organização que não o emitisse de forma convencional, como o governo.

Primórdios conceituais 

O conceito de moeda digital já existe há tempos. Os antigos protocolos de e-cash8 surgidos nas décadas de 1980 e 1990 utilizavam o Chaumian blinding9 para garantir a privacidade, porém este já continha a falha de obter um intermediário centralizado até àquela época. Em 1998, todavia, Wen Dai, um engenheiro computacional e mais tarde cypheranarquista10 e detentor de patentes que mais adiante seriam entregues à Microsoft, escreveu um artigo na comunidade cypherpunk no qual lançava mão de uma proposta teórica e apresentava seu projeto, o b-Money.

O b-Money seria então uma forma inteiramente digital e descentralizada de monetização de um ativo. Em suas palavras, um “sistema de ‘caixa eletrônico’ privado e descentralizado”, onde o dinheiro seria transacionado a todos os participantes. A criação do b-Money deu-se a partir da proposta de criar dinheiro através da solução de enigmas computacionais de conceito descentralizado, o que posteriormente seria somado RPOW de Finney e mais tarde, como se provou no White Peper, ao Bitcoin.

Na virada do milênio, todavia, Nick Szabo, cientista da computação, publicou um ensaio em que descrevia um sistema para moedas digitais descentralizadas com comprovantes em escalas de trabalho, atreladas à chaves públicas e assinaturas digitais. O projeto foi denominado Bit Gold, conquanto em seu escopo provasse que o valor da moeda digital fosse de difícil criação, utilizando-se para tanto as provas de trabalhos como valor do mesmo.

Nesta estrutura, o participante dedicaria seu poder computacional para resolver enigmas criptográficos que seriam enviados a um registro público e posteriormente atribuídos a uma chave pública, formando assim uma cadeia crescente de novas propriedades. Desta feita, a rede faria a verificação e “mineração” de novas moedas. Esta teoria foi descrita em seu famoso artigo As origens do dinheiro. Essa estrutura foi posteriormente usada por Nakamoto para a concepção de seu projeto, rastreada em leituras do protocolo original do Bitcoin.

Prova de Trabalho 

A ideia inicial de um Proof of Work, isto é, uma Prova de Trabalho, protocolo que exige um trabalhoso esforço de cálculo computacional a fim de demonstrar que se realizou alguma tarefa, surgiu a partir do combate de lixo eletrônico e spams em e-mails, os junk mails. Quatro anos depois, em 1997, Adam Back criou o modelo Hashcash, também para para combater spams, que por sua vez deram base para o que mais a frente seriam as Provas de Trabalhos Reusáveis (RPOW), proposta por Hal Finney11, submetidas ao White Paper de Satoshi Nakamoto para concepção original do Bitcoin, as quais mais tarde tornaram-se parte do algoritmo de prova para sua mineração.

Posteriormente outras criptomoedas que surgiram na sequência também a utilizaram, ao replicar o código-fonte do Bitcoin para criar outro ativo. Além de resolver atualizações assíncronas da própria rede peer-to-peer a favor da comercialização destas moedas, o modelo de Finney permitiu que houvesse trocas de ativos sem intermediários, dentro de um banco de dados descentralizado, a Blockchain, resolvendo assim o Problema de Duplo Gasto12. Na esteira, oProof-of-work constituiu-se como uma revolução, à medida que proveu um algoritmo que permitiu que se formassem nós dentro de uma rede coletiva, como um peer-2-peer, e que estes nós entrassem “em consenso” dentro do próprio livro-razão, que é a Blockchain.

Blockchain e o White Paper

Considerada pelo The Economist como “A próxima Grande Coisa”, a Blockchain, isto é, uma cadeia de blocos, nada mais é do que uma base de dados descentralizados ou em processo de distribuição contínua que mantém registros em ordenação racional, os chamados blocos. Em síntese, um livro contábil que registra todas as transações de Bitcoin. Este ano, 2018, o Bitcoin completa uma década e consigo a Blockchain, concebida originalmente no White Paper original onde está seu protocolo. A primeira ideia do que viria a ser a cadeia de blocos, porém, é um pouco mais antiga.

A ideia inicial de uma cadeia de blocos criptográfica foi descrita em 1991 por Sturt Haber e W. Scott Stornetta no ensaio intitulado “How to time-stamp a digital document“. No ano seguinte, eles incorporaram o trabalho aos estudos de Ralph Merkle, transformando-o numa “blockchain” com melhoria e eficiência, dado que coletavam dados computacionais a um bloco. Logo, resolveram o problema da marca temporal de documentos digitais, usando para tanto as funções hash de criptografia tanto para garantir a ordenação de informações quanto para que as mesmas não sofressem adulterações posteriores. A partir da incorporação da Árvore de Merkle13, Haber e Stornetta puderam coletar diversos documentos em um só bloco.

Satoshi Nakamoto, no White Paper, apenas incorporou esta ideia da Blockchain como Livro-Razão para resolver problemas de gastos duplos e registro de transações, o que extirpa a participação de terceiros nos processos de compra e venda pela internet, conceito central do Bitcoin. A partir dessa premissa, ratificado dentro da Blockchain, duas pessoas podem interagir sem a necessidade de uma terceira pessoa, isto é um intermediário como um banco, por exemplo. Assim, dentro da cadeia de blocos cada transação é registrada, imprimindo assim no sistema que a operação foi validada. Ademais, todos os que participam dessa lógica, computadores e nós das redes, chegam a um consenso sobre um histórico apenas e processam só as transações relativas a este.

Atualmente, a Blockchain é usada por diversas criptomoedas, fora o Bitcoin. E há ainda mais projetos de como utilizar esta tecnologia para outros fins como em cartórios, bibliotecas, bancos e mercado financeiro, por exemplo. Mesmo os pessimistas que desacreditam no Bitcoin, pensam eles na Blockchain como forma de diminuir custos e aumentar a segurança e privacidade. Um exemplo disso é o Banco Central brasileiro, que desaprova o uso da moeda, mas elogia a tecnologia. Para o bem ou para o mal, o Bitcoin é uma revolução, e sua história, fascinante.

 

1  Em janeiro de 2009 foi lançado a versão “beta”, chamada Bitcoin 0.1 (posteriormente Bitcoin 0.2), época em que marcou sua primeira cotação no New Liberty Standard, calculado pela medição do custo da eletricidade de um computador para minerar moedas multiplicado pelo custo residencial médio de energia em uma residência americana no ano anterior. 

2  Na cotação de ontem, o valor da pizza de Jercos bateria mais de R$ 450 mil reais.

3 Conhecida também como Criptografia Assimétrica, esta é baseada em algoritmos que requerem duas chaves, uma privada e outra pública. 

4 A Arpanet, a “mãe” da internet, já funcionava com chaveamento de pacotes, em um conjunto de transmissão de dados entre uma rede a qual as informações eram quebradas e divididas em pacotes que carregavam dados entre o pc que os enviava até seu destinatário final, sem qualquer tipo de proteção, todavia.

5 Trocadilho com o Cyberpunk, espécie de subgênero da ficção científica, utilizado pela primeira vez por Bruce Bethke em 1983 e popularizado depois no livro Neuromancer de William Gibson, um clássico do Sci-Fi onde proliferavam cowboys do espaço. Cypherpunks são conhecidos também os ativistas da rede, tais como Edward Snowden e Julian Assange. Este último publicou um livro homônimo a respeito de anarquia e criptografia, lançado no Brasil pela Boitempo editorial, em 2012. 

6 Atualmente existem anúncios que “perseguem” os usuários. Por exemplo, você pesquisa sobre o termo “sandálias” no Google e depois que você fecha a página a qual o termo foi buscado, outras propagandas de calçados similares aparecem como propaganda. Este, por exemplo, é o Remarketing, uma estratégia de Marketing Digital que usa seus dados colhidos de redes sociais ou pesquisas nos mecanismos de busca ou mesmo a partir dos cookies de seu computador para formar seu “perfil como consumidor” e assim angariar suas compras futuras. 

7 Jude Milhon, cyberativista-feminista, morta em 2003, era donas de frases de efeito como “Garotas precisam de modens!” ou “Dê-nos a largura de banda ou nos mate!”. Participara de uma “comuna de programação esquerdista-revolucionária”, em suas próprias palavras, que constituiu assim o primeiro sistema público de informática online, o famoso projeto Community Memory, em Berkley, em 1973, em uma época a qual a internet pertencia a somente dois pólos: o Exército americano e algumas universidades. Cunhou o termo a partir da junção das palavras cypher, em referência à criptografia e punk a partir do conceito de Do it yourself, característica desta tribo urbana. Em 2006, o verbete cypherpunk foi incluído no Oxford English Dictionary.

8 E-cash também foi o nome de um dinheiro eletrônico criptográfico concebido em 1983 por David Chaum para sua empresa, a Digicash. Implementado por apenas um banco, o Mark Twain, em Saint Louis, foi utilizado nos EUA até 1998.

9 Utilizado até hoje como parte do mecanismo de privacidade do Ethereum. 

10 Wen Dai começava seu ensaio na comunidade Cypherpunk com as seguintes palavras: “Estou fascinado com a cripto-anarquia de Tim May. Ao contrário das comunidades tradicionalmente associadas à palavra ‘anarquia’, em uma cripto-anarquia, o governo não é temporariamente destruído, mas pouco a pouco vetado, até fazer-se desnecessário”.

11 Conforme a lenda, Hal Finney, foi precursor do Bitcoin porque recebeu a primeira transação de Bitcoin das mãos de Satoshi Nakamoto. Segundo o The Washington Post, em reportagem de janeiro de 2014, ano da morte de Finney, ele descreve como foi receber a primeira transação da moeda “Quando Satoshi anunciou o lançamento [do Bitcoin], fui a primeira pessoa a adquirir. Extraí o bloco 70 e fui seu primeiro destinatário. Conversei com Satoshi por e-mail, relatei erros e sugeri correções”.

12 Problema de Gasto Duplo é uma falha da Computação Distribuída, no qual um usuário gasta os mesmos ativos por mais de uma vez (i.e., gasta duas vezes o mesmo dinheiro). É distinto em ciptomoedas sortidas. No Bitcoin é usado como um problema atrelado a um paradoxo, o Problema dos Generais Bizantinos, um enigma quase insolúvel para a Ciência da Computação moderna no qual é testada a confiabilidade de uma rede descentralizada de replicar a informação certa e se proteger de potenciais sabotadores. Isto é feito criando-se um número de hash específico para cada bloco e cada transação.

13 A Árvore de Merkle foi teorizada em 1979 por Ralph Merkle e é usada atualmente em hash para proteger dados armazenados. É uma estrutura de dados que permite uma verificação não complexa de informações em um determinado local – no caso supracitado, a própria cadeia de blocos. 

Por Lucas Daniel Tomáz de Aquino

 

Referências

Eric Hughes – A Cypherpunk Manifesto
[em inglês] https://www.activism.net/cypherpunk/manifesto.html

Steven Levy – Crypto Rebels in Wired Magazine, (02/01/1993)
[em inglês] https://www.wired.com/1993/02/crypto-rebels/

White Paper Bitcoin: A Peer-to-peer Eletronic Cash System – Satoshi Nakamoto (2008)
[em inglês] https://bitcoin.org/bitcoin.pdf
The Washington Post – Hal Finney received the first Bitcoin transaction. Here’s how he describes it
[em inglês] https://www.washingtonpost.com/news/the-switch/wp/2014/01/03/hal-finney-received-the-first-bitcoin-transaction-heres-how-he-describes-it/?utm_term=.f3a07b9665f4

Última postagem de Satoshi Nakamoto in Bitcoin Talk (12/12/2010)
[em inglês] https://bitcointalk.org/index.php?action=profile;threads;u=3;sa=showPosts

Wen Dai – B-Money (1998)
[em inglês] http://www.weidai.com/bmoney.txt

The Economist – The next Big Thing (09/05/2015)
[em inglês] https://www.economist.com/news/special-report/21650295-or-it-next-big-thing

Sturt Haber e W. Scott Stornetta – “How to time-stamp a digital document” (1991)
[em inglês] https://crl.anf.es/pdf/Haber_Stornetta.pdf

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here